Reunião sobre futuro do Fundecitrus retrata crise do setor.

28/12/2007

Por Gustavo Porto

Ribeirão Preto, 18 (AE) - O que deveria ser um workshop de avaliação de um novo modelo de contribuição para o Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), se transformou num exemplo da crise institucional do setor citrícola brasileiro. No encontro, realizado hoje de manhã em Araraquara (SP), estiveram presentes apenas dois membros do conselho do Fundecitrus, um deles da Citrosuco, que deixou o local antes da metade do debate.

O presidente da entidade, Hans Georg Krauss, o vice, Antonio Egídio Crestana e representantes das diretorias das outras grandes processadoras de suco de laranja também não foram ao workshop. Cerca de 20 pessoas, a maioria produtores e funcionários do Fundecitrus, formaram a platéia do evento.

As propostas para mudar a forma de contribuição que mantém o orçamento anual de R$ 40 milhões do Fundecitrus foram apresentadas por representantes do Centro de Conhecimento em Agronegócio da Universidade de São Paulo (Pensa/USP). Atualmente, o tributo é recolhido por caixa da fruta entregue à indústria e a proposta do Pensa é fazer o recolhimento por meio de uma série de variáveis. A mais polêmica delas é a cobrança da contribuição do produtor por árvore de citros em sua propriedade.

Após a exposição do coordenador do trabalho, e do Pensa/USP, Marcos Fava Neves, o citricultor Frauzo Ruiz Sanches pregou a manutenção da atual cobrança da contribuição, de R$ 0,09 por caixa, e afirmou que era um consenso, pelo menos no Sindicato Rural de Itápolis (SP), principal região produtora de laranja do País, que a proposta de cobrança por pé não seria aceita. "O meu custo de produção é por caixa e não por pé", disse Sanches. "Mas o custo e vistoria do Fundecitrus é por pé. Não é correto, por exemplo, cobrar mais mensalidade de um clube de uma pessoa mais rica e menos de uma que ganha menos", tentou justificar Fava Neves.

Em seguida, representantes da Associação Brasileira dos Citricultores (Associtrus), que é excluída do conselho do Fundecitrus, iniciaram os tradicionais ataques à diretoria da entidade. Cobraram transparência, pediram clareza nas respostas do Fundecitrus aos questionamentos feitos sobre a arrecadação do orçamento e sobre o estatuto do fundo. "As respostas dadas aos questionamentos do Pensa/USP durante o trabalho mostram uma falta de clareza de quem quer implodir o Fundecitrus", criticou Flávio Viegas, presidente da Associtrus. Nem mesmo o alerta de "um colapso do Fundecitrus se não houver a união", feita pelo diretor científico da entidade, Juliano Ayres, amenizou as críticas dos produtores ligados à associação.

Menos exaltados, os citricultores Roberto Jank e Joaquim Dragone ratificaram que seria impossível mudar a cobrança da contribuição de caixa para pé de citros, mas sugeriram que a cobrança da indústria fosse proporcional ao suco de laranja exportado, averiguada junto à Secretaria de Comércio Exterior (Secex). "Temos de esquecer o passado e pensar para frente", disse Jank aos produtores da Associtrus. "Mas eu concordo que é impossível mudar a cobrança sem uma mudança na imagem do Fundecitrus, inclusive com a implantação da sugestão do Pensa/USP de se fazer uma auditoria externa", completou o produtor.

Fava Neves, do Pensa/USP, aceitou as sugestões de que seja mantida, ao menos nos próximos três anos, a contribuição por caixa, proposta que deve ser incluída no relatório final da entidade ao Fundecitrus. No entanto, não ficou definido se o estatuto do fundo, que determina a mudança, pode ser alterado. As dúvidas devem ser resolvidas na quinta-feira (20), às 10 horas, quando os advogados do Fundecitrus devem atender os produtores em sua sede, também em Araraquara.

Caso não sejam possíveis as alterações, o conselho do Fundecitrus deve aprovar parte das sugestões do Pensa/USP divulgadas no evento. Além da contribuição do produtor por pé, outras mudanças prevêem um pagamento fixo de 33% do orçamento por parte das indústrias e a tentativa de ampliar a cadeia de mantenedores do Fundecitrus com a inclusão de viveiristas, fabricantes de insumos, packing houses (depósitos), envasadoras e o governo.

 

Agência Estado