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A ‘Bomba relógio’ do suco de laranja

23/01/2013



Queda do consumo, preços baixos e brigas internas pressionam a citricultura.

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A fazenda Santa Heloísa, na região de Taquaritinga, a cerca de 70 quilômetros de Ribeirão Preto, de certa forme resume a crise na produção de laranja no País. É possível ver as frutas apodrecendo sobre a terra, reflexo da falta de compradores para a mais recente colheita. Na preparação para o próximo ciclo, milhares de pés de laranja foram arrancados e, amontoados, esperavam a remoção e a substituição pela lavoura de cana-de-açúcar.

Produtores rurais de cidades como Bebedouro e Taquaritinga, conhecidas como “capitais” da citricultura nacional, lembram que as concessionárias de veículos ficavam em polvorosa a cada safra. Nos anos 70 e 80, os “barões” da laranja só andavam de carro novo. Áureos tempos que ficaram pra trás. Hoje, a tendência é a substituição da laranja pela cana, que dá retorno garantido. Agrônomo do Sindicato Rural de Taquaritinga, Sérgio Bellentani foi um dos pioneiros da mudança de cultura. Fez a escolha há 12 anos e afirma que não se arrepende.

“As pessoas me viram derrubando os laranjais e pensavam que eu estava louco”, lembra. Hoje, enquanto a maior parte dos citricultores precisa disputar a tapa um subsídio governamental para reduzir o prejuízo – o recurso oficial, de R$ 120 milhões, garante o preço a R$10, já que as indústrias da região se dispõem a pagar no máximo R$ 6 -, Bellentani recebe adiantado das usinas de açúcar e etanol. A remuneração é acertada antecipadamente. “Eles também fazem todo o trabalho da lavoura, que é mecanizada. Acho que foi uma troca vantajosa”.

A tendência de “passar o chapéu” no governo a cada safra e de interpretar as altas de preços por quebras de produção nos Estados Unidos como regra acabou por empurrar a citricultura para a beira do abismo. Nas últimas duas safras, que foram recorde, o Ministério da Agricultura mais uma vez interveio: diante da ameaça da indústrias de não comprar o produto, houve subsídio para a estocagem. “Hoje, a situação está no limite, não há espaço físico para colocar suco de laranja”, afirma Christian Lohbauer, presidente da CitrusBR, que representa as indústrias do setor, que hoje se resumem a três grupos poderosos: Citrosuco, Cutrale e Louis Dreyfus.

Em baixa. Além da situação pontual dos estoques, há diversas adversidades de longo prazo no caminhos dos produtores de laranja. A mais grave delas é a queda do consumo do suco da fruta. Hoje, tanto produtores quanto as indústrias concordam que é preciso fazer alguma coisa para abrir novos mercados, já que os principais pólos consumidores estão trocando o suco de laranja por bebidas mais “modernas”, como refrigerantes, águas saborizadas e energéticos. Toda vez que uma opção nova surge, o mercado da velha laranja é ameaçado. “A gente nunca vê propaganda de suco de laranja, só vê comercial da Coca-Cola. Precisamos fazer alguma coisa”, diz Nivaldo Davoglio, produtor de Taquaritinga.

A queda do interesse do consumidor pelo produto fica transparente em números. Entre 2011, cada alemão consumia, em média, 14 litros de bebida, volume 25% inferior ao de oito anos antes. No mesmo período, o consumo per capita também teve forte retração no Japão (-30%) e nos EUA (-28%). A situação foi agravada quando dietas famosas – como a do Dr. Atkins – indicaram o suco de laranja como um vilão das calorias.

E o que fez o setor para combater a propaganda negativa e estancar a sangria de mercado? Quase nada. Nem a solução encontrada por nove entre fez segmentos da economia nos últimos anos – um foco maior no mercado interno – foi posta em prática. Noventa e oito por cento do suco concentrado brasileiro continua a ser exportado. E o consumo per capita do produto, embora baixo, ficou praticamente estacionado ddesde o inicio da década passada, segundo dados do próprio setor. O mercado brasileiro é dominado pelo néctar, em que metade do produto é composto de água e açúcar – o volume de suco com 100% de fruta é quase nulo. “A gente precisa encontrar uma solução para incentivar o brasileiro tomar mais suco”, diz o economista Alexandre Mendonça de Barros, da consultoria MBAgro.

A dificuldade em definir uma linha de ação pode ser explicada pelas brigas internas do segmento. As indústrias criaram a CitrusBR e conseguiram apoio da Sociedade Rural Brasileira (SRB) para a formação do Consecitrus, órgão inspirado justamente no Consecana, do setor sucroalcooleiro, que definiria práticas de mercado e serviria de fórum de discussão de preços. Mas entidades como a Federação da Agricultura de São Paulo (Faesp) e a Associtrus não concordam com o desenho apresentado. O Consecitrus faz parte do processo de aprovação da fusão entre Citrosuco e Citrovita no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). O governo, embora simpático a uma organização estruturada do setor, cobra mas consenso entre as entidades que representam os diferentes interesses.

Membro da câmara setorial da laranja no Ministério da Agricultura, o presidente do Sindicato Rural de Taquaritinga, Marco Antônio dos Santos, está organizando ainda para janeiro uma reunião com diversas entidades para convencer os produtores dos benefícios do Consecitrus. “É a única saída”, afirma. Entre as propostas da entidade está justamente a criação de uma marca nacional de suco industrializado com 100% de laranja. Uma redução de tributos sobre o produto está pré-negociada com o governo. A idéia é baixar o preço nas gôndolas para no máximo R$ 4 por litro (hoje, os impostos e as margens do varejo fazem o produto custar entre R$ 5 e R$ 6). Responsável por estudos econômicos que baseiam a criação do Consecitrus, o consultor Mendonça de Barros afirma que é preciso agir rápido. Nessa safra, cerca de 10% da produção acabou sem comprador e foi desperdiçada. Para o ano que vem, mesmo com a quebra de safra que o mercado já antecipa, é provável que o volume que apodrecerá nas lavouras seja ainda maior.

Visão do mercado

Alexandre Mendonça de Barros
Economista e consultor da MB AGRO

“Hoje, parte da produção brasileira tem um custo tão alto que a atividade só se sustenta em um nível de preço muito alto. Isso causa um problema sério, pois esses patamares não ajudam a abrir mercado em países em desenvolvimento, onde há potencial de o consumo do suco de laranja crescer”.

Preste atenção

A encruzilhada da citricultura

1 - Brigas internas. Várias associações disputam o título de “representante” dos produtores. Enquanto as organizações não resolvem suas diferenças, o setor não tem condições de escolher um direcionamento para resolver suas deficiências de competitividade.

2 - Consumo em queda. A União Européia é hoje a principal compradora do suco de laranja brasileiro; no entanto, os principais mercados europeus estão bebendo menos suco. Na Alemanha, entre 2003 e 2011, o consumo do produto caiu 25%, segundo pesquisa da consultoria Markestrat.

3 - Mercado interno. O setor se conformou em depender das exportações – hoje, só 2% do suco concentrado feito no País fica em território brasileiro. O brasileiro bebe, por ano, 4 litros de suco de laranja – um quarto do índice de países desenvolvidos.

4 - Concorrência de outras bebidas. No Brasil e nos Estados Unidos, o suco de laranja perdeu mercado para novidades como águas saborizadas e energéticos. E não houve nenhum trabalho de marketing como estratégia de contra-ataque a opções industrializadas (e muitas vezes artificiais) que roubaram o espaço da velha laranjada.

5 - Dependência das benesses do governo. Toda a vez que uma crise se instala, a solução preferencial do setor é “passar o chapéu” no governo. Nas últimas safras, houve ajuda oficial para a formação de estoques de suco – que estão em nível de alta histórica. Neste ano, já foram liberados R$ 120 milhões para complementação do preço pago aos agricultores.

Fonte: O Estado de São Paulo
Fernando Scheller (textos)
Paulo Liebert (fotos)
20/01/2013


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