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Editorial

O resgate dos citricultores

23 de abril | 2010

O professor Marcos Fava Neves foi mais uma vez contratado pela indústria de suco de laranja para quantificar e mapear a cadeia produtiva da citricultura e promete informações que surpreenderão pela dimensão econômica e importância do setor.

Em artigo publicado recentemente em O Estado de São Paulo, o professor Fava critica as notícias de cartel, de terceirização ilegal e exploração de mão de obra, expulsão de pequenos citricultores, entre outras notícias negativas.

Sublinhamos a palavra notícia porque temos verificado que a cartelização, a terceirização e a exploração da mão de obra, a expulsão de citricultores do setor, as fraudes, a evasão fiscal e de divisas são consideradas ações normais e indispensáveis para a competitividade desse “dinâmico” setor de nossa economia. E o que realmente incomoda é o fato de alguns setores da mídia insistirem, numa atitude impatriótica, em divulgar tais fatos.

A indústria brasileira de suco de laranja, que controla mais de 80% do mercado internacional desse suco, é apresentada como uma vítima indefesa do “volátil mercado”, mesmo diante de denúncias de ex-participantes do cartel sobre acordos de preços de venda do suco de laranja no mercado internacional. No entanto, ela tem capacidade de provocar enormes oscilações na bolsa de mercadorias, através da compra ou venda de posições.

Os produtores expulsos são, mais uma vez, taxados de incompetentes e ineficientes. Esse tem sido o “mantra” repetido pela indústria, que vem aumentando o preço do suco ao consumidor e reduzindo o preço da fruta, retirando do produtor a capacidade de manter e renovar o seu pomar. Através dessa estratégia, 20 mil citricultores foram expulsos do setor e “financiaram” a “fundo perdido” os pomares próprios da indústria, os quais, por sua vez, ampliaram sua capacidade de comprimir os preços e controlar a produção de laranja, num círculo vicioso infernal.

A tão decantada “evolução tecnológica”, que aumentou a produtividade de 416 para 600 caixas por hectare, consistiu em aumentar a densidade de plantio de 250 para 476 plantas por hectare, o que corresponde a uma diminuição da produtividade de 1,66 para 1,26 caixas por árvore! Com esta produtividade, o custo de produção calculado pela CONAB, para a safra de 2009, foi de R$15,87/cx e o preço pago pela indústria não chegou a R$8,00/cx! Com os prejuízos acumulados nestes últimos 20 anos de ação do cartel, onde os produtores iriam buscar recursos para investir R$20.000,00 por hectare e aguardar quatro anos para o início de produção do pomar renovado?
Apesar de tudo, ele conclui que 80% da fruta processada pela indústria vem de seus próprios pomares e de grandes produtores e que serão necessários instrumentos de proteção de risco, recursos para a renovação competitiva e contratos de participação estáveis para os pequenos e médios produtores.

Nós acrescentamos a necessidade de desarticular o cartel e restabelecer a concorrência entre os processadores; reverter o processo de verticalização; indenizar os produtores vítimas do cartel e com isso resolver o problema do seu endividamento.

Só assim resgataremos os citricultores e a autoestima do setor.

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