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Cartel da laranja expulsou do campo 20 mil produtores, dizem citricultores
28 de maio | 2010
Jornal Hora do Povo (07 a 11 de Maio-Jornal Impresso)
Em conluio a Cutrale, Louis Dreyfus, Citrosuco e a Citrovita pagam ao produtor do interior de São Paulo valores 40% abaixo do preço de mercado
O ex-produtor de suco de laranja, Dino Toffini, denunciou em audiência na Assembléia Legislativa de São Paulo formação de cartel no setor. De acordo com as denúncias de Toffini, o cartel é formado pela Cutrale, Citrosuco (do grupo Fischer), Citrovita (do grupo Votorantim), Louis Dreyfus e CTM (sua antiga empresa, vendida à Cargill).
“A idéia foi de José Luís Cutrale (sócio-proprietário da Cutrale) no início da década de 90”, afirma Dino. Segundo ele, “a indústria que começa a moer marca o preço, fixa o preço de entrada. As outras acompanham ou não.
Geralmente é o Zé Cutrale que dá o tom. A manipulação da oferta e da demanda é o que motiva o cartel. Eles controlam a oferta e a demanda mundial”.
O presidente da Associação Brasileira de Citricultores (Associtrus), Flávio Viegas, confirmou a atuação do cartel e os prejuízos sofridos pelos citricultores. “Mais de 20 mil citricultores foram excluídos da atividade por conta da atuação do cartel. Aguardamos pela conclusão das investigações que correm na SDE”, disse Viegas completando: “Também perdemos 80 milhões de pés de laranja”. Além disso, de acordo com Viegas, os produtores que sobreviveram à ação do cartel “perderam seus patrimônios, perderam seus pomares, perderam suas propriedades, e estão, na maioria, endividados. Estimamos que a dívida supere R$ 1 bilhão”.
O cartel formado pelas indústrias de suco de laranja é alvo de investigações do Ministério Público e da Polícia Federal desde 2006. O Brasil é o maior produtor de suco concentrado de laranja do mundo, sendo que a maior parte do suco produzido no país é exportada para os Estados Unidos e Europa.
O advogado Bruno Vasconcelos e Souza, que defende Toffini, declarou à revista “Dinheiro Rural” que o cartel tem como objetivo jogar o ônus sobre o produtor, e assim permitir às empresas a compra de laranja pelo preço que o cartel determinasse. “O problema foi tão sério que matou a citricultura paulista”, declarou Souza. De acordo com a reportagem da revista, os produtores de laranja do interior de São Paulo há anos reclamam dos valores pagos pela produção. “Ou você vende para eles ou perde o que produziu”, disse à “Dinheiro Rural” um produtor de Itápolis, que pediu anonimato. Ele revelou que o preço praticado pelo cartel chega a ser 40% abaixo do valor de mercado, o que inviabiliza a atividade.
Como conseqüência da ação do cartel, muitos produtores abandonaram o cultivo da laranja, sendo obrigados a vender suas terras às indústrias. Apenas a Cutrale conta com 30 fazendas nos estados de São Paulo e Minas Gerais. Além disso, a empresa é acusada de grilar terras da União. Em 2005, o Incra notificou a Cutrale sobre uma de suas fazendas, em Borebi (SP), que está na área pertencente à União. “Estão desestruturando a citricultura e ninguém faz nada”, disse Paulo Ricardo Machado, ex-diretor da Louis Dreyfus, que participou de algumas reuniões do cartel.
Além de sofrer com a ação do cartel, os pequenos produtores acumulam dívidas que podem inviabilizar suas atividades. O presidente da Associtrus estima que 90% dos produtores enfrentam problemas para rolar suas dívidas. “Não queremos perdão. Só queremos prazo maior”, disse Viegas, que pediu ao governo federal alongamento dos prazos.
