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Defesa da concorrência e suco de laranja
04 de maio | 2009
Julio Cesar Bellingieri
Poder de mercado é a capacidade que uma empresa tem de cobrar pelo seu produto um preço acima do seu custo de produção, sem ter suas vendas reduzidas por isso: quanto mais o preço do produto está acima do custo de produção, maior o poder de mercado da empresa.
Uma empresa monopolista, a única a vender um produto ou serviço num determinado mercado, obviamente tem total poder de mercado. Um exemplo disso são os medicamentos patenteados: enquanto durar a patente, ninguém pode fabricar aquele remédio, e o laboratório poderá vender ao máximo preço possível. Depois que a patente terminar, laboratórios poderão fabricar genéricos do remédio, e o poder de mercado do ex-monopolista se reduzirá.
Já a produção de bens agrícolas é um exemplo típico de mercado sem nenhum poder de mercado: produtores de laranja, cana-de-açúcar, soja, milho, tomate, etc., nunca conseguem colocar o preço que desejam para seus produtos, por isso são obrigados a seguir o preço que o próprio mercado determina. Há três motivos para isso:
1. Existem “infinitos” produtores: cada um exerce uma interferência nula no mercado, sem nenhuma capacidade de influenciar no preço;
2. Produzem um produto homogêneo. De modo geral, a laranja produzida em Bebedouro é igual à produzida em Limeira, e não haveria nenhuma razão para a de Bebedouro custar mais caro ou mais barato;
3. Não existem barreiras à entrada nos mercados agrícolas. Numa situação em que o preço do produto está alto, muitos produtores seriam atraídos para o setor, o que aumentaria a oferta do produto, e derrubaria o preço no momento seguinte.
Dessa forma, produtores agrícolas sempre ficam na dependência do preço que o mercado pagará, quase nunca conseguirão cobrar muito acima do seu custo de produção.
No caso do mercado de laranja, há um fator adicional: o mercado de suco de laranja, do qual os produtores são fornecedores, é concentrado nas mãos de apenas cinco empresas. É o que chamamos de oligopsônio: um mercado com poucos compradores (com alto poder de mercado) e muitos vendedores (com nenhum poder de mercado).
É uma situação bastante curiosa, onde quem tem o poder de ditar o preço é quem compra, e não quem vende, mas que traz os seguintes prejuízos à economia: 1. Transfere lucros dos produtores de laranja para a indústria de suco; 2. Desarticula o mercado de laranja, desestimulando a produção da fruta; 3. Inibe a concorrência no próprio mercado de suco, pois as empresas, cada vez mais fortalecidas, dificultarão a entrada de concorrentes, que poderiam baratear o suco pronto, para o consumidor.
Enquanto os oligopsônios funcionam dentro da normalidade do mercado, trata-se de uma situação praticamente inevitável, que pode ser minimizada quando os produtores se juntam em cooperativas. Agora, quando as empresas passam a combinar ações e formar cartéis, a situação se torna ilegal, e cabe ao governo coibir essa prática, por meio das leis de defesa da concorrência.
Crédito: Jornal Impacto
Bebedouro-SP
