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Editorial Flávio Viegas: Primeiro de Abril
05 de abril | 2010
Há algum tempo o presidente da CitrusBr, o Sr. Cristian Lobauer, que substitui o “saudoso” Ademerval Garcia, afirmou que 80% dos citricultores estavam satisfeitos com os preços recebidos pela laranja.
Em outra entrevista concedida para a Jovem Pan, foi ainda mais longe afirmando que a indústria detém 30% da fruta que processa e que 50% da fruta vem de contratos de longo prazo, que contemplam um piso para o preço da laranja e prêmio em caso de aumento de preço do suco e que 20% da fruta vem dos contratos “spot” ou portão. Estes são, segundo ele, produtores que amam o risco e optaram por não fazer contratos com a indústria.
Talvez o Sr. Lobauer, por estar há pouco tempo no setor e ser informado pelos advogados das indústrias, desconheça que, se existe esse tal prêmio, ele está destinado aos 200 amigos da indústria e que contratos não significam nada para a indústria. Os contratos são cumpridos ou não, dependendo da conveniência da indústria: na safra passada, citricultores que tinham contratos acima de US$4/cx, como ocorreu em outras ocasiões, foram obrigados a renegociar seus preços para US$ 4 ou menos. Em contrapartida, quando os preço do suco aumentaram, depois dos furacões na Flórida, todos os produtores que tinham contratos, inclusive contratos abaixo de US$3, foram obrigados a cumprir integralmente os contratos e não tiveram nenhum “prêmio”, ao contrário, o contrato assinado na FAESP que previa um adicional de preço não foi cumprido.
O representante das indústrias tenta desinformar ao separar o suco concentrado do suco não concentrado, como se os dois produtos não fossem obtidos da mesma laranja. Cinicamente a indústria afirma que os preços da laranja são determinados pelo mercado, quando ela mesma já concorda que existiu cartel até 2006, e continua negando, apesar de todas as evidências, que o cartel não atua mais. Fala em “altos estoques” que não se confirmam nos números publicados pelo USDA e em queda da demanda sem falar na queda da oferta que supera a queda da demanda.
A realidade é que, apesar do preço crescente do suco ao consumidor, o preço da laranja, desde a assinatura do contrato de cartel em 1995, vem decrescendo. Os produtores perderam seus pomares e estão endividados, enquanto o patrimônio das esmagadoras vem crescendo, o que é confirmado pela expansão dos pomares próprios, aquisição de concorrentes, investimentos em ampliação de fábricas, no sistema de transporte e distribuição de suco, entre outros investimentos, muitos deles financiados pelo BNDES.
Um dos argumentos que a indústria utiliza para negar o cartel é o baixo preço de registro nas exportações do suco de laranja, esquecendo-se de que esse raciocínio pode levar a conclusões que poderão incriminá-las, uma vez que o aumento do patrimônio apresentado pelas indústrias nos últimos anos não é compatível com a baixa rentabilidade que eles declaram oficialmente. A explicação para essa aparente contradição está na diferença entre o preço do suco exportado e o preço do mesmo suco no mercado europeu, o que permite que as indústrias acumulem no exterior recursos, livres de impostos, que posteriormente são utilizados através de uma engenhosa “engenharia financeira” como empréstimos bancários nas suas operações. As parcerias estratégicas das indústrias com as grandes engarrafadoras, como a Pepsi Cola e a Coca Cola garantem a essas indústrias ganhos adicionais que não conseguimos sequer avaliar.
