23 de julho | 2008
O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento enviou na semana passada à Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa/RR), notificação sobre a ocorrência de praga exótica em Roraima. A doença é conhecida como ácaro hindu dos citros e o Estado é o único do país onde a doença foi detectada este ano.
Devido à notificação, na próxima quinta-feira (24) a Secretaria de Estado da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), em parceria com o Ministério da Agricultura e Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), realizam uma reunião com trinta engenheiros agrônomos e produtores rurais do Estado. O encontro será para discutir e repassar conhecimentos sobre o controle da doença, que já vem sendo combatida por produtores de limão Taiti da região do Carrapato, na área rural de Boa Vista.
De acordo com o engenheiro agrônomo Samuel Carlos de Santana, da Divisão de Defesa Vegetal da Seapa, o foco dos representantes da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Agrícola, Seapa, Embrapa, Ministério da Agricultura e produtores, principais interessados, será discutir as formas de combate da doença e para se evitar que o ácaro hindu dos citros ultrapasse as fronteiras de Roraima, considerando que o Estado é o único onde a doença foi detectada este ano.
Segundo ele, a hipótese é que o ácaro tenha entrado em Roraima através da Venezuela. “O controle da doença é emergente até para a gente evitar que ocorra a inviabilização na suspensão de exportações de frutas cítricas para outros estados”, explicou.
Na quinta-feira pela manhã, os engenheiros irão a campo para verificar de que forma os produtores de limão Taiti da região do Carrapato estão conseguindo fazer o controle da praga com a utilização de agroquímicos aplicados com pulverizadores de pistola que alcançam os galhos mais altos das fruteiras. No período da tarde, os engenheiros e produtores participarão, no Auditório da Seapa, de um encontro mais teórico para conhecerem detalhes técnicos e histórico da origem do ácaro hindu do citros.
PESQUISAS – O ácaro S. hindustanicus foi detectado em folhas e frutos do limão Taiti e galeguinho, no Município de Boa Vista. As primeiras amostras inspecionadas foram encaminhadas por pequenos agricultores ou proprietários de pomares domiciliares, ao laboratório de entomologia da Embrapa Roraima, aos cuidados os pesquisadores Alberto Luiz Marsaro Júnior e Ranyse Barbosa Querino, em fevereiro e março deste ano.
Na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia em Brasília (DF), aos cuidados da pesquisadora Denise Navia, os ácaros (machos e fêmeas) foram preservados em meio de Hoyer e identificados pelo microscópio óptico de contraste de fase, com lentes objetivas de 40 e 100 vezes. Exemplares foram enviados também ao professor Carlos Holger Wenzel Flechtmann, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ) da Universidade de São Paulo em Piracicaba (SP), que confirmou a descrição original da espécie.
SINTOMAS – Os danos ocasionados pelo S. hindustanicus em folhas e frutos de citros são bastante evidentes, devido ao aparecimento de manchas esbranquiçadas circulares. Nas folhas, esses danos surgem principalmente na superfície superior, inicialmente ao longo das nervuras e, posteriormente, estendendo-se por toda a superfície folhar. Nos frutos os ácaros tecem uma fina teia nas depressões e concavidades, de modo que a superfície dos mesmos torna-se uniformemente prateada e, quando a infestação sobre todo o fruto, com a textura endurecida.
Os sintomas observados em limoeiros infestados pelo ácaro em Boa Vista são similares aos descritos. As manchas esbranquiçadas sobre as folhas e frutos, variam de 1 a 2 mm, distribuem-se uniformemente no tecido infestado, o que lhes dá um aspecto peculiar. Também foram encontradas algumas plantas apresentando sintomas por toda a copa.
Medidas emergenciais serão adotadas para contenção da praga
Entre as principais medidas sugeridas à Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa) para a contenção do ácaro S. hindustanicus no Estado de Roraima está a atenção especial aos municípios de fronteira com a Venezuela, país onde o ácaro está presente e de onde pode haver se disseminado por meios naturais ou através da atividade humana. Os levantamentos deverão incluir as áreas de plantio de acácia em Roraima, considerando que na Índia o gênero da acácia foi relatado como hospedeiro do ácaro.
Outras medidas são tentar eliminar o foco de infestação através de tratamento químico ou eliminação de hospedeiros; controle restrito do trânsito de material vegetal dos hospedeiros de S. hindustanicus para os demais estados brasileiros; avaliar a susceptibilidade das diversas espécies de citros, bem como do coqueiro e sorgo, às infestações pelo ácaro – apesar de no Brasil a praga só ter sido encontrada em limoeiros até o momento – e avaliar o potencial de distribuição geográfica do ácaro no Brasil visando determinar áreas ameaçadas.
Para isso é importante determinar os parâmetros biológicos da espécie, incluindo os limites máximos e mínimos de temperatura e umidade relativa.
DISSEMINAÇÃO – O ácaro hindu dos citros foi originalmente descrito em Coimbatore, Sul da Índia, em 1924. Por muitos anos a sua presença não foi relatada em outros países, até que em 2002 confirmou-se casos da praga em Zulia, Oeste da Venezuela, sendo este o seu segundo país de ocorrência no mundo e primeiro nas Américas. Não há até hoje informações sobre a ocorrência do ácaro em outros países da América Latina.
CDT terá equipamento para desinfecção
Para evitar a ocorrência de contaminação por doenças existentes fora do campo de pesquisa, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Agrícola (SMDA) fará ainda este ano aquisição de equipamentos para a instalação de rodolúvio e pedilúvio na entrada do Centro de Difusão de Tecnologia da Fruticultura Irrigada (CDT), localizado a 17 quilômetros de Boa Vista, na BR- 174, região de Monte Cristo.
De acordo com o secretário adjunto de Desenvolvimento Agrícola, Hipérion Oliveira, o rodolúvio é uma espécie de sistema de arco aspersor instalado no local de entrada e saída de veículos. Ele é utilizado para pulverizar produtos que vão garantir a limpeza e desinfecção dos veículos que têm acesso ao Centro, evitando que esses carros tragam para dentro do CDT, onde há várias pesquisas em desenvolvimento, qualquer tipo de doença que possa contaminar as culturas em desenvolvimento.
O pedilúvio segue o mesmo conceito de utilização de produtos para a limpeza e desinfecção, só que é um sistema instalado no chão para a limpeza dos pneus dos veículos (no caso da entrada e saída do centro) e também dos sapatos das pessoas que transitam pelo local (na entrada dos viveiros e estufas).
“Temos hoje muitas experiências de cultivo na área de fruticultura sendo desenvolvidas no Centro, por esse motivo já adotávamos algumas medidas para evitar algum tipo de contaminação das plantas por qualquer espécie de doença ou praga. A implantação do rodolúvio e pedilúvio é mais uma medida, sem contar que também já auxilia no trabalho de orientações aos produtores sobre os cuidados e tratos preventivos do plantio”, disse Hipérion.
PESQUISAS – O Centro de Difusão Tecnológica da Fruticultura Irrigada funciona em um espaço de 60 hectares, a 17 quilômetros de Boa Vista. Estão sendo implantadas gradativamente 18 culturas para pesquisa, entre elas a laranja, tangerina, limão, manga, graviola, banana, dendê, maracujá, goiaba e mamão.
De acordo com o secretário adjunto de Desenvolvimento Agrícola (SMDA) a idéia é transformar Boa Vista num pólo produtor de frutas tropicais, a exemplo da cidade de Petrolina, em Pernambuco. “Para isso, nós temos trabalhado nos últimos anos buscando uma mudança de cultura na sociedade, na qual os pequenos proprietários rurais se conscientizem da possibilidade de transformar suas propriedades em pólos de produção”, disse.
ESTRUTURA – O CDI conta com a prestação de serviço de 18 pessoas, entre técnicos, trabalhadores da área administrativa e de serviços gerais. A água usada na irrigação do plantio é captada de cinco poços artesianos e canalizada para um tanque-pulmão com capacidade para 200 mil litros, evitando a retirada de água dos igarapés.
O Centro também conta com três subestações de energia, galpão para máquinas agrícolas e implementos, insumos e defensivos, alojamento com banheiros e lavatórios e complexo de cozinha e refeitório.
Fonte: Folha de Boa Vista (22/07/2008)