13 de novembro | 2008
Novas variedades de laranjas pigmentadas, ricas em substâncias como licopeno e betacarotenos de reconhecido valor nutricional e medicinal, deverão estar disponíveis para a produção comercial entre 5 e 10 anos. A previsão é do pesquisador do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), Rodrigo Rocha Latado. Ele começou as pesquisas com as variedades sangüíneas e de polpa vermelha em 2005 e é responsável pelo projeto “Caracterização Agronômica e da Qualidade de Frutos e de Suco de Laranjas de Polpa Vermelha e Sanguíneas”, apresentado em setembro deste ano. As laranjas são divididas em função da coloração, entre grupo das laranjas brancas ou claras e grupo das laranjas sangüíneas. As frutas claras representam quase que a totalidade das laranjas comerciais cultivadas no mundo, incluindo variedades de mesa como baías, washington navel e baianinhas, entre outras, e também as variedades utilizadas pela indústria de suco.
As laranjas sangüíneas são caracterizadas pela coloração vermelha-intensa (violácea ou roxa) da polpa e do suco, devido à presença do pigmento antocianina, solúvel em água. Estas variedades são mais cultivadas nas regiões do Mediterrâneo e na Índia, onde apresentam grande aceitação comercial. Nas laranjas sangüíneas, a presença da coloração violácea é favorecida pelo clima ameno ou clima mediterrâneo e pela maior amplitude térmica diária (dias quentes e noites frias). Essas características favorecem a formação de frutos com maior teores de antocianina (antioxidante), resultando numa coloração mais intensa. Quando cultivadas em regiões quentes como no Noroeste e Norte paulistas, a coloração é amarela clara.Latado disse que está testando de sangüíneas no Sul do Estado e no Vale do Paranapanema. O pesquisador também informou que faz experimentos com a manutenção em câmara fria durante 30 ou 40 dias para os casos em que a temperatura não desce ao nível de frio necessário nos quais o fruto retoma a coloração violácea. Além disso, a conservação dos frutos em temperaturas baixas (4 ou 10 graus centígrados), durante um período de tempo que pode variar entre 30 e 90 dias, permite incrementar a concentração de antocianinas nos frutos e no suco de laranjas sangüíneas.
Frutas são originárias de 5 países diferentes
O Banco Ativo de Germoplasma (BAG Citros) do Centro de Citricultura “Sylvio Moreira”, em Cordeirópolis, apresenta 17 variedades que podem ser consideradas como laranjas sangüíneas vindas da Itália, Marrocos, Córsega, Espanha e do Brasil. Existem também as variedades de laranja com polpa de coloração vermelha intensa, chamadas de laranjas de polpa vermelha ou falsas-sangüíneas, que têm essa cor devido à presença de elevados teores dos carotenóides: beta-caroteno e licopeno na polpa. Como a polpa destas variedades de laranja não contém o pigmento antocianina, os sucos obtidos com os frutos das laranja de polpa vermelha não apresentam coloração tão intensa como os das laranjas sangüíneas. As falsas-sangüíneas têm coloração vermelha mesmo quando cultivadas em regiões quentes ou de baixa amplitude térmica diária e, teoricamente, devem apresentar coloração ainda mais intensa, quando plantadas em regiões de clima ameno e/ou de alta amplitude térmica diária.
O BAG Citros mantém três variedades consideradas do grupo de laranjas falsas-sanguíneas: sanguínea-de-mombuca, valência puka e a baía cara-cara. Além de grande concentração de vitamina C, os frutos e suco das falsas- sangüíneas têm maiores teores de carotenóides e são ricas em licopeno cujo uso está associado ao combate de câncer de próstata.
Latado disse que agora começa a fase de estudo de características agronômicas, importantes para o cultivo nos pomares como tamanho do pé, resistência e tolerância a pragas e doenças, produtividade, brix, teores nutricionais, período adequado de colheita dos frutos (precoce, média estação, tardias).
Divulgação
Fruta colorida pode ajudar consumo interno
O pesquisador Rodrigo Latado afirmou que o desenvolvimento de variedades de laranja pigmentadas pode contribuir como alternativa para resolver o baixo consumo no mercado interno da fruta, que é considerado um dos principais problemas da cadeia comercial da laranja brasileira. As novas variedades seriam destinadas, principalmente, para o consumo in natura e fabricação de sucos minimamente processados como suco pasteurizado ou NFC (do termo em inglês “Not From Concentrated”). No projeto “Caracterização Agronômica e da Qualidade de Frutos e de Suco de Laranjas de Polpa Vermelha e Sanguíneas”, Latado cita que, no ano de 2002, apenas 17% do total de frutos produzidos foram comercializados no mercado interno e lembra que é preciso implantar uma agenda de ações para o desenvolvimento do setor citrícola. O pesquisador explicou que os citros são plantas perenes, de ciclo vegetativo longo, isto é, levam muitos anos para iniciarem a produção, o que torna o melhoramento genético para essas espécies um processo longo e trabalhoso.
Por outro lado, a grande vulnerabilidade genética da cultura, devido às poucas variedades que constituem os plantios comerciais, frente a fatores adversos como as pragas e doenças, têm se tornado uma preocupação constante no melhoramento dos citros. ”O atual sistema brasileiro, basicamente monoclonal (com um ou poucos clones) de variedades com base genética estreita (baixa variabilidade) e em grandes extensões de terra, faz com que várias doenças apareçam e se tornem limitantes do cultivo de citros.” As variedades hamlin, pêra-rio, natal e valência, que se destinam principalmente à demanda da indústria de suco, passaram desde a década de 70 a predominar no parque citrícola brasileiro, principalmente no Estado de São Paulo, maior produtor da fruta do País. De acordo com o pesquisador, as indústrias de suco concentrado de laranja têm demonstrado interesse no desenvolvimento das variedades pigmentadas que, pelas qualidades como antioxidantes e carcinogênicas, têm potencial de aproveitamento nos sucos pasteurizados.
Cresce a demanda por suco pasteurizado
O professor da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, Evaristo Marzabal Neves, explica que o consumo de suco pasteurizado (ou NFC) de laranja tem aumentado entre os consumidores dos Estados Unidos. Este comportamento ocorre devido ao crescente apelo por alimentos saudáveis. Este fenômeno também é verificado entre os brasileiros. “O NFC tem menos açúcar que o suco concentrado de laranja”, disse o professor. Segundo dados coletados pelo Sistema de Análise das Informações de Comércio Exterior via Internet (Aliceweb), da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), em 2004 o Brasil exportou 329,7 mil toneladas de suco NFC, o que representou um faturamento de US$ 76,2 milhões. Já no ano de 2007, a exportação de 795,2 mil toneladas de suco pasteurizado totalizou US$ 221 milhões.
Ainda, de acordo com o levantamento realizado pela Secex, foi registrada, até setembro deste ano, a remessa de 617,6 mil toneladas de NFC para o exterior, operações que resultaram um faturamento de US$ 189,3 milhões. “Há um grande interesse na seleção e lançamento de novas variedades de laranja doce que tenham aptidão para o consumo como fruta de mesa e/ou para a produção de suco NFC, o que resultaria também numa maior diversificação varietal para a citricultura brasileira”, afirmou o pesquisador do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), Rodrigo Rocha Latado.
Fonte: Carlos Eduardo de Souza – Diário da Região