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Gazeta Mercantil – Citrus

07 de maio | 2009

Citrus: Indústria acusada de aviltar os preços


 


À denúncia de formação de cartel que pesa sobre a indústria brasileira de suco de laranja se soma agora nova acusação, também articulada pelo setor produtivo, de conduta estratégica para eliminar determinado grupo de fornecedores da fruta. Segundo o presidente da Associação Brasileira de Citricultores (Associtrus), Flávio Viegas, alguns produtores estariam condenados a abandonar a atividade. Benedito Correia da Silva, que cultiva a fruta em Engenheiro Coelho (SP), está fadado a acompanhar esta remessa de desertores involuntários. “Não tenho mais para quem entregar laranja. Desde que o último contrato chegou ao fim no ano passado, eles (as indústrias) nem me recebem mais”, conta o agricultor.


 


A prática de combinação de preços, convênio ou aliança visando à fixação de preços ou controle das quantidades vendidas ou produzidas que, supostamente, estaria sendo forçada pela indústria foi denunciada pelos produtores ao Grupo Especial de Delitos Econômicos (Gedec) do Ministério Público do Estado de São Paulo, que iniciou investigação por suspeita de prática de cartel pelos fabricantes de suco.


 


Segundo o representante dos citricultores, as indústrias combinariam preços e dividiriam os produtores em três grupos, que variam de acordo com o preço pago pela fruta. Pelas laranjas do Benedito, a indústria pagava, até 2008, apenas US$ 3 a caixa de 40,8 quilos . “Existe o grupo de produtores que se enquadra na categoria A1, eles recebem o menor valor pela caixa e estão sendo empurrados para fora do setor. O grupo A2 é formado por produtores intermediários, que fazem uma espécie de figuração e produzem a laranja de segurança. Esses recebem em torno de US$ 4. Já os produtores do grupo A3 são aqueles que vão permanecer na atividade e para garantir essa permanência a indústria oferece dois contratos, em um deles paga US$ 4 e em outro, de gaveta, garante remuneração complementar para que ele não abandone a atividade”, conjectura Viegas.


 


É através da fixação dessas faixas de preços que a indústria camuflaria a prática de cartel, segundo análise do presidente da Associtrus. “Em 2008, eles pagavam R$ 15 pela caixa de laranja aos produtores que eles queriam que ficassem no setor; R$ 12 àqueles que deveriam permanecer por algum tempo; e entre R$ 7 e R$ 8 àqueles que deveriam sair do mercado”, afirma Viegas.


 


As investigações da SDE iniciadas há mais de dois anos foram interrompidas por decisão judicial, que decretou o arquivamento dos documentos apreendidos naquela época nas sedes das indústrias alvos da investigação. Há menos de um mês, a Justiça concedeu autorização para abertura de lacre de parte dos dados que estão com a SDE.


 


Os alvos das denúncias em questão não comentam essas, tampouco outras acusações que pairam sobre o setor. Ainda este mês, deve nascer uma nova associação para representar a Cutrale, Citrovita, Citrosuco e Louis Dreyfus. O já escolhido diretor-presidente Christian Lobauer admite que a imagem deste elo da cadeia produtiva do suco “está desgastada. Quem fala de um lado consolida o argumento”, pontua Lobaeur. Ainda sem falar pelos representados, ele argumenta que essa suposta estratégia de eliminação de produtores “é infundada. Um “sistema misto de produção garantiria formação livre de preços”.


 


As 300 milhões de caixas produzidas anualmente por São Paulo fazem do Estado o maior produtor mundial. De acordo com Renato Toledo, presidente do Conselho da Associtrus, o produtor está fazendo um trabalho extrativista, porque está sendo expulso do setor pela indústria”. Ou pelo fechamento dela.


 


Em Bebedouro (SP), com o fim do processamento da fruta na fábrica da Citrosuco, mais de 300 empregos diretos foram perdidos e os produtores que forneciam a fruta ficaram à mercê da demanda das fábricas de outras regiões do Estado. Desde o início do ano, 6,3 mil postos de trabalhos foram fechados na cidade do interior paulista, baixas menores apenas que as da capital.


 


Com os empregos de Bebedouro se foram os hectares cultivados com laranja. A fruta que já ocupou mais de 45 mil hectares na região, hoje não é cultivada nem em 18 mil. Assim como em boa parte da região norte e nordeste de São Paulo, os pés de laranja deram lugar à cana-de-açúcar. Até o representante dos produtores de citrus, trocou parte da lavoura pela cana. “Eu também cedi espaço à cana para me manter na atividade”, admite Viegas.


 


Além das condições determinadas por um mercado à beira da cartelização, os produtores enfrentam a devastação provocada pelo greening. Na última inspeção realizada pelo produtor Celso Cardoso nos 80 hectares cobertos por laranja na região de Limeira (SP) ele arrancou cerca de 150 árvores. Cardoso ainda figura na fatia de 25% de produtores que têm contrato com alguma indústria, no caso dele a Cutrale. Pela caixa que entrega à fábrica recebe US$ 3,40 e nem um centavo mais via “contrato de gaveta”. “Até queria continuar na atividade, se o greening e a indústria permitirem. Caso contrário, vou ter que ceder espaço à cana como vários outros produtores já fizeram”, prevê Cardoso.


 


 


Fonte: Gazeta Mercantil